8 de julho de 2020

Eu sou só um, pouco do mesmo.

   Na minha mala, levo canções e poemas, que carregam minhas histórias, assim como você ou todos levam suas metáforas. Sim, nós somos afeto que nos afeta, mas também somos decepção e dor, alegria e mágoa, sorrisos e lágrimas. Somos todo o significado, e toda a confusão.

    Nunca me achei especialmente talentoso, atraente ou interessante. Mas ainda assim, fui muitos: me escondi sob várias máscaras durante tantos anos.

    Fui fogo, jovem e inconsequente. Ardi buscando apenas o céu, só cuidei de minhas asas. Nada importava, nada fazia diferença se não fosse do meu jeito inconstante. E por isso, paguei. Por ser fogo, feri e queimei a alma de quem  me cercava e tentava me alcançar, e deixei cinzas por onde passei. Então veio a primeira metanoia, levando meu primeiro eu.

     Fui água, fluido e determinado. Caminhei delicadamente, preenchendo os espaços onde tomava assento, dediquei-me a fornecer alento e vida ao jardim que veio morar em mim, e tal qual ilha, cerquei de cuidados o meu oásis. E por isso, mais uma vez paguei. Por ser água, afoguei os sentimentos puros da nascente, e a força inexorável derrubou todas os diques, levando ilha e oásis rio abaixo, deixando apenas pântanos. Então veio a segunda metanoia, lavando meu segundo eu.

      E fui pedra, duro e calejado. Enraizei-me firme em minhas convicções, certo de ter as respostas do fogo e da água. Mas ofuscado pela prepotência e arrogância, esqueci-me dos outros elementos, esqueci-me do vento e do frio, esqueci-me das flores e da fauna. E por isso, paguei: Por ser pedra irredutivelmente fixa, parti em mil pedaços. Então veio a terceira metanoia, apagando meu terceiro eu.
      E sempre foi difícil, se rearranjar, colar os fragmentos da alma que levou embora aqueles que viviam em mim e colocou no lugar outras personas, nesse conceito que tomei emprestado em um velho livro de Jung, e que faz tanto sentido quanto sentar em um banco de jardim e olhar a sinfonia das poucas flores que nascem sob uma brisa gélida de inverno. Esperamos sempre uma primavera, colocamos nos outros os elementos que queremos que sejam, mas no fim, somos nós.

     Sou eu, que defino o caminho, a transformação. É de mim a metanoia, todas elas.

     E os "eus" que se foram, não moram mais em mim, mas ainda vivem: em cada poema de amor, em cada canção de saudades. Em cada lágrima de mágoa ou sorriso de afeição. Vivemos dentro dos afetos que nos afetam, e se o passado não se pode mudar, ele vive para sempre nas fotografias da memória daqueles cujas histórias tocamos, mesmo que de passagem com as pontas dos dedos.

     Sempre valeu a pena, e sempre valerá. Cada história cifrada ou não, aberta ou encapsulada, em prosa ou em verso, vem temperada de sentimentos daqueles que viveram para que fosse verdadeira.

Essa é a minha, até agora enquanto espero minha próxima metanoia.

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