25 de fevereiro de 2026

O eremita e a ostra

    

   -- Estou magoado. - Disse o eremita evitando olhar para a concha fechada à sua frente.


    E é só um silencio barulhento em volta. Os ruídos da vida continuando normalmente no fundo desse mar se colocam quase como que cuidadosamente em segundo plano. O silêncio é o que tem mais peso.


   -- Não é porque você não quis mais ser meu lar, sempre soubemos que um dia não caberíamos mais juntos. Mas sim pelo desprezo e desrespeito pela morada que tivemos, ao se lacrar dentro em uma concha como quem resolve cultivar uma pérola, ignorando que quem já te morou nunca deixa completamente um lugar onde o viver já foi feliz. Ao expulsar sumariamente de forma cortante, fria e afiada. Isso não condiz com os sussurros que me davas as vezes... Eram mentiras, e eu senti. 

   -- Estou magoado pelo assassinato de uma egrégora, ato unilateral disfarçado de autoresolução. Nós dois sabemos a verdade no fundo da alma, ostra. Nós dois sabemos. Se fechar pode te dar pérolas, mas criar pérolas é envolver dentro de si algo incômodo, danoso... Coisas com muitos nomes. A pérola cobra um preço alto pela sua beleza, e se fechar não permite que se expulse o veneno. Espero que você um dia vire morada outra vez, e que quem ocupe teu ser te tire a vontade de se fechar. Te desejo um campo de girassóis no seu caminho. 



     E se virou de costas para o silêncio, seguindo a corrente dessa maré da vida, que taoisticamente leva a lugar nenhum e a todos os lugares. "Tomara que nunca a abram a força para lhe roubarem as pérolas e jogá-las aos porcos", pensou. Tanto a frente, e um lugar a menos para visitar. 



    E o eremita viveu, morou e foi quem sempre deveria ter sido. 
    
    E a ostra viveu, cultivou e curou dentro de si o que precisava.


   Ou não, mas isso ninguém sabe

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