2 de janeiro de 2023

Na fé

     De tudo que quero, já sei o que não posso querer. E assim é suave, 'orvalhadamente'. Um faz de conta de por quês, desfilando abençoadamente na minha cabeça-de-ventania, enquanto o rastro do sol deixa meu quintal perfumado de presenças sortidas, coloridas, amadas e saudosas. E eu me embalo nos braços de um vento fraquinho, suficiente para balançar memórias afetivas e certezas amargas: todas frutos de algum acaso, ou alguma decisão. 
     E as cinzas... esvoaçantes espaçadas que dançam em um palco alto de tijolos vermelhos, postos ali como plateia protetora que testemunha a tragédia do fogo que queima mas se vai, e leva todas as histórias consigo. Chamados em chamas que só deixam lições, e um cheiro de queimado que não sai, mesmo que não esteja mais ali. 
     Aqui mora meu cachorro. Traz um eco feliz de rude latido e afago irrestrito, amor incondicionalmente puro e verdadeiro. Por que não nasci cachorro? Mas fico feliz que ele viva aqui, que aquela energia incrível vire eternamente parte desse quintal. Desse e do quintal que levo comigo onde for.
     E nesse meu quintal cheio de tanta coisa, que viu o tanto quanto devia, toda paz é barulhenta e toda vista silencia. Ali moram as árvores que sabem de tudo, cochichando ao lado das cinzas de lembranças amadas e dolorosas. Quase sinto o toque da camisa-de-força que certos abraços se tornaram, um perfume debaixo dos outros se insinua, e escuto de onde estou, mesmo livre, uma caixinha guardada tentando se abrir ao pedir para meu íntimo que me prendesse de novo. Se não sei o que quero, tenho que saber o que não posso ter. E ironicamente isso não pode ser tirado de mim. I need to go, and i hope you understand...

Dou um sorriso. Para o quintal, para ela. Para ninguém além de mim mesmo. Pro Bruce. 
     
O vento bate mais forte, agora. Me arranca de um quase-transe. No fundo do meu olhar, vejo uma rosa colorida, que liga um quase-palco ao backstage. Pelo barulho das pessoas lá fora, chegou a minha hora de ir. Por mais que veja - e viva, viva, viva - , nunca vou ver de tudo, e o quintal sempre vai estar aqui, ou comigo. Amanhã eu volto. Beijos.

E eu vou na fé.

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